Dias em que sou inteiramente dela. Madrugada a dentro no interior da personagem que crias. Dia desses que vira memória inventada, abandonada, vitimizada, caçada, egoísta, narcísica. Dividir essa pele que descama contigo. A casa trancafiada, transbordando para dentro não consigo mais nada, então falando sozinha me ameaço.

Tem o versículo preferido, as multidões cantando, o antes do verbo, o choro e os batimentos do coração de leoa de minha mãe, o batismo do colonizador, nossos ideais ingovernáveis como pétalas ao vento. Coisas que dói. Heterônimo que corrói. Mano Pessoa, como se des-inventa a dor que não posso mais?

Deixar que tu entre em meu corpo, largar facas pelo chão e fazer do caminho puro corte. Tem tu de quem eu nunca falo. Tu não vem. A lua chama, sendo ela que se faz de gata, cadela, cobra e fala línguas não inventadas. Incomoda o corpo. Incômodo um rosto virtualmente vendido por alguma atenção. Era mesmo aqui? Dias em que ausências ganham lugar. Mas estás aqui. Ou eu te criei também?

Em que parte de mim tu se escondeu? Esperando que atendam o delivery: - olá, tudo bem? Me vê um cavalo, um piano, um trequinho daqueles que revela a foto com água, no escuro, não sei, um kit, isso! um kit anti-auto-crítica-excessivas, peregrinas egípcias ressuscitadas, experiências coletivas de libertação. Libertação.

Subir até o morro descampado mais isolado de Biguaçu, mirar o brilho podre do rio doce, no 3.000 de um futuro ao vivo, sou mais um dia de reprise.

Pegar tua mão, abraçar tuas pernas cheias de feridas. Dias em que sou dela como o mar é da terra, utopia de unidade. Como o dia que nasce da barriga de uma noite sempre prenhe. Dias em que não se insinua nenhuma linha entre poesia e filosofia. Descer a montanha enquanto corro, pés e palavras não alcançam, então posso voar. Porção para 01, por favor.