Curvas de nível à canetinha no papel de bilhete.

Não sabia que me acusavam de animosidade, de exagero, mas de afetação, talvez, eu até já sabia. O dentro e fora de minha casa se anulam, toda vez que nela permaneço ou quando dela me ausento: vim de pura flutuação. Bolha de sabão procurando olhar quem a sustente no ar.

Espraiar-me pela contração e pela expansão cíclicas das narrativas, assim como as tintas se apossam dos quadros. Essas acusações falham na tentativa de me afetar. Por isso não há tempo para forjar réplicas aos filhos que encarnam a decadência.

Para descer por meus labirintos, os corpos têm de acionar, com o peso e a leveza, alavancas pelo percurso. E eu sou o centro desse abraço.

Magma; creme laranja; avermelhado calor; desajeitado despejo de amor; desmaiar sobre as paisagens; quieta sob o gelo; o lento papo com o tempo; o beijo do sol; o esbarro em metais pesados e fluídos de insetos; cristalização: meus óvulos encrespados feito recifes: contar a história mostrando o transmutar de minha aberração.

Estrategista e amadora, fileto gargantas experientes. Mas não tema, não. Meu recanto se enleva ao te acolher. Preparo o caminho com cuidados mil, orações cantadas baixinho por velhinhas que te farão envelhecer, rosário atrás de rosário, quieto, sem Luz, sem Paz, também, se preciso for. E sobre as presenças das ausências?

Nascemos do mergulho ingênuo no corte que violenta essas duas estâncias - hibiscos hermafroditas adoçam, educando a atenção ( cultura), a harmonia dessa sincronia -, sinto, às vezes, informar que minha casa se assemelha às outras em torno, tão terna e espinhosa como as outras.

E aí a banalidade, aparentemente, baliza-me. Seja na Síria que vi de perto ser explodida, seja nos ensanguentados relevos das depressões tropicais, capricornianas, equatoriais: eu até que podia, puramente, recusá-los, só que os homens (descobri com visitas íntimas às vítimas) se fazem com mais do que implicam essa palavra e seu gênero. Perceba, essas coisas tu só podes entender ou execrar, aqui, soterrada. Com a promessa de flores que um dia se enraizarão em seu crânio.

Minhas crianças brincam e circulam do fóssil ao míssil. Cuspo gravidade pelas janelas, eis minha missão: derramar-me por cada orifício que aqui entra: olhos, ouvidos, narinas, boca, cu, cada chakra, de tão transbordante, por pouco, não comporta espaço para a objetificação. Nem tudo suportamos.

Quando emergi até a superfície, a obscenidade de meus monstros ainda não se solidificara o suficiente para que assim eles se percebessem.

E, mesmo assim, amo seus erros. E me pergunto: por que eu, Àiyé, filha do caos, vestida de espumas e estrelas mortas, deveria acorrentar as vibrações desses jovens corações cá dentro desta esfera?

Tudo vai bem com minha ciência e com qualquer que seja essa coisa zunindo como "consciência". Só que não penso que sinto com a cabeça: sinto que penso com o útero, um orgão-fissura ao passo de se deixar ficcticiopenetrar.

A densidade da carne corrobora a confusão.

Como posso te parir e querer te tirar a vida? Como posso te expelir para fora de mim, em plena agonia, e, em seguida, chamar teu nome?

Destaco a palavra e o sangue corrente se posso em algum canto me localizar, no baile dos doentes que dançam nus e que, na madrugada, procuram pelo mar, beijando estátuas e encarnando em cidadãos sem antecedentes, sem malícia, efluviando os membros sobre corpos sutis.

Factual é a vulgaridade que se procede, leito onde posso deliciar-me com o canibalismo e com a mutação. Placentofagia: as lagartixas e baratas não sobrevivem em esconderijos artificiais.

Decoro com luzes espaciais as curvas escuras dessa habitação e sequer ouso deduzir que me procuram nos quartos - ordenam as suas lembranças que encontrem-me, mesmo sem procurar.

Sinto minha voz ascender aos fios de cabelo de cada um de meus filhos. Sublime é o momento em que ensaio, reencenando atos, os encontros fugidios, em que eles vêm famintos pelo pólen da polis que de mim é eivado. Recorro ao espelho e distribuo carinhos, afagos. Tu se edificando em mim, escalando em minhas pernas de montanha para fugir do que o amedronta.

Nossa comunicação se deu, primeiro, por choques alados, por uma gritaria do caralho, seguidos de lutas e arremesso de notas musicais, frutas emboloradas, manchas de coagulação sob a epiderme, arroz doce, cenas de episódios imemoráveis, mãos curadas com banha derretida.

Espio sobre os muros, circunscrita no arame farpado e nos cacos de vidro, enquanto meus amores não voltam, trago-os para casa de meus sonhos e canto, ninando-os, mesmo que eu não saiba o que é descansar.

Essa casa que conjuga, à sua maneira, os galpões necessários para que cavalguem os ciclopes, e, na forma de larvas azuis espiraladas, rios analógicos para que delirem os tornados. E o mundo envereda por meus quadris: meu corpo toma a forma da casa e do próprio mundo que a cerca, cada vez que te aperto entre meus braços, monstro.

Nisto, somos parecidos, eu e meu vizinho Minotauro: não sabemos distinguir as lágrimas da música turbulenta que, desde sempre, ecoa e preenche nossas casas. Após entrar em nossa casa, não é mais preciso acordar.