Monólogo de gaveta (repetição da repetição)

Meio que o meio e a repetição formam esse ser, esse banco de dados lançados, essas quebras. Meio que parei de fumar, eu digo, (com cigarro entre os dedos), meio que esqueci de pensar de hora em hora por onde você anda, se anda selvagem, se anda se estranhando, se achando, pousando de flor em flor, pelas rodovias, se anda de ônibus, de bicicleta, de prancha, de noia em noia, de destino em destino. Você me dizia que era uma obsessão pelo sentido (ele é último, um vapor chega ao céu cavucando na Terra), você me dizia que eu perderia o tato, que nunca erraríamos. Que era uma infantilidade profissional. Da cópia a pior: a cópia de uma parte tua que ficou em mim, (a gente fica nas coisas quando a gente ***). São partes de nós que ficam em cada coisa, coisa louca, coisa sábia, normal, outrora, coisa que sente, que sai de casa sem rumo pedindo soco como prova de amor. Por onde você anda? Nessa farsa de você, você, você, o mundo inteiro tão distante na paisagem, séculos trancado em casa, na praia, no coração remoto e desiludido de alguém? Num poema que guardei? Escreveria que eu, nós, eu e os meus, (possuídos, por mim, pelas mãos invisíveis do mercado, por um ódio de classe que se reverte num desafio de ser justo consigo, amar a si, consigo, é uma pretensão isso, falar contigo, sendo que não falo há meses comigo) andamos sem pedalar quando passamos pelos buracos da estrada. Aqui no bairro são tantos buracos que uma barra circular só pode chegar até o caminho sem pedalar ao passar pelas poças d’água. Se você pedala, se tu pedala, se ela pedala, na poça da água, todos os fingimentos respigam, e eu sei que tu gostas de um fingimento de normalidade, de uma síntese, de um gênero, de celulose, de uma pirinha, nicotina é uma desculpa, tu tá ligada? A gente fuma para poder escrever, escreve para poder fumar, para poder tempestear nessas nuvens de ninguém, sei lá nós nessas terras de ninguém. Tenho a sensação de que nossos destinos são determinados por aplicativos. Eu desenhei um tema, um tópico, um meio que: correntes, pedalar nos buracos da estrada de areia com a barra circular, deixar cair as correntes, da bicicleta, dos portões, dos pescoços, das palavras, do peito, da literatura de nossas conversas, desse medo de ser só e prolixo, de ir pro lixo…. Eu vi o mar por uma fresta e ali se fez um poema, nem eu, nem o mar, a visão era o poema. Vi porque a barra circular estacionou (correntes despencadas). Só poetas têm a visão! Que bom a que a gente poetisa a cada vez que respira e pedala com correntes caídas.