Estamos atendendo com horários reduzidos, confira

Fechei mais cedo hoje. Sem previsão de retorno. Lembrei que sobreviver com um corpo é como viver sobre a corda bamba, oscilando entre os vivos e mortos que se debatem nos bastidores. Onde os atos já não são ensaiados porque já correm capilares pelo sangue, onde meses e meses de trabalho nada valem se não bem in-corporados aos delírios travestidos de fatos — “trabalho”, forças que decidem sobre a existência dos corpos e dos fatos.

À deriva de um derivar contínuo, eis a sina de ter esse corpo cheio de orgãos: o útero, o centro do receptáculo hipotecado, servindo aos moldes dos senhores de tudo, as pernas atrofiadas pelo excesso de mundo, o rosto que vez ou outra procura os joelhos mirando o esquecimento ou o “como acordar” das dúvidas, das dívidas.

Lembro da presença dos neurônios em cada tecido que reveste tais orgãos, e imagino a irritação que um fígado neurótico pode causar aos pulmões, ao cerebelo, gerando conflitos entre coração e cidade.

Desejo um corpo sem orgãos e livre de peles. Lembro que encarnar essa esfera é correr o risco de viver sem ter o controle do que se quer ser e do que deve ser. É ser o risco. E o risco de atuar virtualmente é o de compor o universo onde nenhum ato futuro dependerá apenas do desejo solitário. Onde nada é completamente solitário. Onde o desencadear dos ventos e dos eventos depende dos eu-tros a quem assisto e que me assistem mesmo quando ainda não existo. Percebe? Estamos cercados.

Lembro que performar em comunidade é sacrificar a gana pela forma do corpo, que mal é extraído do caos e já jorra litros de gente, e mais gente e mais gente pelos poros. Toda essa gente que nasce com nome, telefone, endereço e sonhos codificados.

Fora do tempo, debatendo-me no equilíbrio do peixe que grita ainda vivo na boca de quem morde. Amanhã abro novamente. Não precisa erguer as grades.