Desde criancinha gostava da maquiagem, de máscaras. Não se entendia com o rosto que os genes dos pais lhe deram. Os governos, a família, grupos, panelinhas a faziam palhaço, então, pra protestar deslizava o pancake na cara, comia tomate pelo nariz. Cantava se imaginando de frente para um auditório imaginário, mas só enquanto ninguém via. Nem na frente da família poderia dançar. Na solidão é que rasgava nos lábios um sorriso tecido para si e para o turvo desconhecido. O leão com as patas quebradas, lindo, doentio, só que bonito nas fotos das férias.

Não sabia bem ao certo qual era a doença, mas tinha a ver com ser o que se é e que iria tomar remédio pra sempre. Ou com tudo que você podia ser. Chega domingo e sempre parece que Milton Nascimento é mesmo Deus. Chega domingo e “parece que a qualquer momento eu posso encarnar espíritos e no ímpeto agir sem atos coordenados. Parece que posso ser possuída por mim mesma, invandir as casas, lamber as lâmpadas e percorrer os fios capilares das rede elétrica, te comover como só um gif da Gretchen faz: abrir com as pernas um arco-íris escrito foda-se”. Doeeente, doeente, tu não tá, mas isso que sentes, sim, é doença.

Maçãs verdes oníricas dormem furiosamente, mas não matam a fome de ninguém na realidade. Na realidade, é uma questão de câmeras embaralhadas, de um marketing espiritual para vender pirâmides pré-moldadas. Aquele barulho de tiros era aqui dentro. Passe a base, rímel, batom mate, encarne máscaras que vai faltar água. Maquiagem à prova d’água: galera, mão na cabeça. A polícia tava lá quando cheguei. Veio aplaudir como no cinema mudo, orgulhosa de uma imagem calada e passiva ao som que escorre dos olhos do outro. A partir de agora a tinta entra pelos poros, personas e pessoas desenhadas desfazem o passado. História se fazem na medida em que no futuro não há perspectivas senão trancar as ruas. Vai pra casa. Essa maionese gelada e essa latinha choca botam a gente comovida como o diabo. Aquela casa se construindo era aqui dentro.

Ser um mago que bate nas pedras cheias de limo e faz verter chuva de limonada, chuva de letrinhas e de palavras, que da pedra tira uma outra pessoa, uma baixaria, nomes impróprios para o horário, mas que teus filhos assistem de olhos vendados antes de dormir. Aquela vontade não de gerar, mas de fazer ressuscitar multidões era aqui dentro.