De que lugar se projetam os paraquedas?

Do lugar onde são possíveis as

visões e o sonho. Um outro lugar que a gente pode habitar além dessa terra

dura: o lugar do sonho. Não o sonho comumente referenciado de quando se

está cochilando ou que a gente banaliza “estou sonhando com o meu

próximo emprego, com o próximo carro”, mas que é uma experiência

transcendente na qual o casulo do humano implode, se abrindo para outras

visões da vida não limitada. Talvez seja outra palavra para o que costumamos

chamar de natureza. Não é nomeada porque só conseguimos nomear o que

experimentamos. O sonho como experiência de pessoas iniciadas numa

tradição para sonhar. Assim como quem vai para uma escola aprender uma

prática, um conteúdo, uma meditação, uma dança, pode ser iniciado nessa

instituição para seguir, avançar num lugar do sonho. Alguns xamãs ou

mágicos habitam esses lugares ou têm passagem por eles. São lugares com

conexão com o mundo que partilhamos; não é um mundo paralelo, mas que

tem uma potência diferente.

Quando, por vezes, me falam em imaginar outro mundo possível, é no

sentido de reordenamento das relações e dos espaços, de novos

entendimentos sobre como podemos nos relacionar com aquilo que se

admite ser a natureza, como se a gente não fosse natureza. Na verdade, estão

invocando novas formas de os velhos manjados humanos coexistirem com

aquela metáfora da natureza que eles mesmos criaram para consumo próprio. Todos os outros humanos que não somos nós estão fora, a gente

pode comê-los, socá-los, fraturá-los, despachá-los para outro lugar do espaço.

O estado de mundo que vivemos hoje é exatamente o mesmo que os nossos

antepassados recentes encomendaram para nós.

In: Ideias para adiar o fim do mundo, Ailton Krenak