De maneira imediata a criança de peito vive o drama original de todo existente, que é o drama de sua relação com o Outro. É na angústia que o homem sente seu abandono. Fugindo à sua liberdade, à sua subjetividade, êle gostaria de perder-se no seio do Todo: aí se encontra a origem de seus devaneios cósmicos e panteísticos, de seu desejo de esquecimento, de sono, de êxtase, de morte. Êle nunca consegue abolir seu eu separado: pelo menos deseja atingir a solidez do em-si, ser petrificado na coisa; é, singularmente, quando imobilizado pelo olhar de outrem, que se revela a si mesmo como um ser. É dentro dessa perspectiva que cumpre interpretar as condutas da criança: sob uma forma carnal, ela descobre a finidade, a solidão, o abandono em um mundo estranho; tenta compensar essa catástrofe alienando sua existência numa imagem de que outrem justificará a realidade e o valor.

Simone de Beauvoir, In: O Segundo Sexo.