Como se ama a jovem mística

Nas palavras da música que toca na casa do lado, Volta bebê, volta bebê, misturando o Tábua de Esmeraldas tocando aqui dentro, nos latidos e no tilintar dos grilos, se escutar bem dá pra ouvir nossa história. Escutas e nada tens a dizer. Penso cá que se perguntar quem sou eu, num domingo, encontro as pessoas, lugares, raios de sol, e memórias que respondem a tal questão. E quem sabe, digo desses domingos, de dias de folga, de dançar contigo, que cansa. Noutro dia um bar da esquina ela swingava e a tentava me ensinar a dançar brega mesmo em dias de céu nublado, diz que eu faço errado, que tem que se jogar por inteiro, como se remasse com quadris que guiam um barco. Desprovida de forma compreensível, ela desde sempre morou no silêncio, mesmo sendo um bicho discursivo. Para casa voltando de pé sujo, com a cabeleira suada e colada na ele, com algumas cicatrizes de amazonas irrigadas de sangue nos dedos, se acabou no pagode. Encara as pernas cheias de feridas, e as compara aos dias, mesmo que machucados eles nos levam longe. Diz que fareja pelo belo, seja essa beleza divina ou profana. Diz que ama mesmo as pedras e a imundície dos corpos, que ama o ocaso das presenças, porque tudo isso tudo a lembra o lugar de onde veio.. Disso eu lembro, porque concordo. Mas não digo que concordo, a graça dessas provocações sérias demais.
E aí rotacionarmos numa conversa labiríntica sobre os terapia holística, o curso de heiki que ela começou com um grupo de senhorinhas, e o realinhamento dos chakras, a kabbalah, o universo mental no qual estamos em profunda imersão a cada bater no peito. Diz que a prova viva de uma possível reconstrução contínua, aí já bota um “não é mais big-bang” no meio, é essa, o universo se expande e contrai no ritmo de nossos corações. Que pira. Dá até pra esquecer o balançar da bunda dela, o botão de flor se abrindo no jardim das virilhas, pra viajar também nesse rolê de física quântica. Abrimos a porta, tiramos os sapatos e ela acende um incenso. A casa poderia facilmente ser de uma cartomante, feiticeira, charlatona ou cigana. Deita no chão e suspira, o mundo se expande e contrai no ritmo das batidas de um coração, diz repetindo como se eu não tivesse escutado, não é lindo isso?
Lindo será o toque de seu céu da Boca bem aqui, penso, pulsando. Miro o corpo de jovem brasileira, quente, macio e vejo nela um oceano no qual quero mergulhar, esqueço como se fala.
Como se explica a bateria metálica acionada somente por puro aroma de suor e óleo de tangerina, laranja. Por pura energia. E eu incorporo nas minhas falas essa energia, porque ela continua: nos DNA’s existem filamentos invisíveis são encadeamentos de energia, ela continua megalomaniacamente calma. Às vezes a mística íntima daquela moça me pega. Também, as frutas entre o comestível e o podre avolumando na cesta que ela guarda para visita da bruxa caiçara, o incenso, velas pelas mesas, velas pelo chão pelas estantes, velas que derretem e pingam e transbordam pelas quinas dos móveis, como não ter tanta energia, se até teu lamento é razão para pulsar, transcender dessa kitnet até a quíntupla dimensão. Uma bichinha selvática. Encadeamentos de energia quando alcanço pescoços, quando arranho e mastigo carne, só aí posso falar. Gostei que ela fala o tempo todo nessa energia que não vemos, na energia cósmica, ancestral. Eu já não falo, minha energia é mais uma energia cinética, faço mais do que falo. Faço e só vou de dale em dale sem objetivos muito bem definidos.
Ela faz também, e fala. E, porra, como fala, a vinculação das mínimas partículas imateriais de ondas eletromagnéticas sob os dedos, não sei nem se chegam a ser partículas, mas com elas enlaçamos e devolvemos quem queremos no mundo e o mundo decide se vai pra nunca mais ou se nos devolve essa ligação, nós no caso é a mesma coisa, sorrindo, this nigga its mine, essa voz que está dentro de ti, o que é o eu? ela pergunta, se fechar os olhos e imaginar o que é seu eu? depois da altura, do peso, dos cabelos do sexo, dos traços do rosto, quem sou? e se imobiliza diante da própria ignorância, fita a telhas do teto e as paredes chapiscadas, deliciosa e mística ignorância, cinco horas da tarde já foi o vinho, o haxa, rango vegano, vela, óleo, masala, fim de semana sem ninguém em casa, tudo certo pra dar conta daquele fogo no cuzão e a gatinha se derramando no tapete em pura dúvida existencial, sendo que podia estar se derramando em fluídos, em mim. Tem gente que chapa e se excita até com vento e tem as moças de vênus em aquário, mas agora já não tem jeito. E ela fala antes, durante, após o evento, ela fala com o vento, e o desafio é fazer causar nela um emudecimento de tem fala pra dentro, comigo ali de dentro pra dentro. Ainda mais assim quando anoitece e desaparecemos na escuridão junto com qualquer palavra, quando nos transformamos no oceano imenso em que mergulhamos.