Equilibrista da ponte Hercílio Luz em 1975 (Foto: Lourival Bento).

Aniquilação ou alienação de vórtices e vertebrados quase quebrados

Ideia fosqueante fascinante para um romance: na cidade da artéria aberta, um sujeito começa a perceber que não importa se é segunda ou sexta, se tem dinheiro achado ao longo da via, todo dia é um correr, ir, molhar as plantas, brincar com os riscos de morte, olharparoprópriopés e voltar. Todo início conectado ao fim, serpenteando no muro do mundo uma lagarta com motivos espirais impregnados em seu corpinho de verme, ela sai de um ângulo redondo, muda de ideia no caminho, olha os preços na feira, anda no asfalto, masca o chiclete que antes no pixe vem antes no seu sapato e vai e vem e termina sempre esmagada, ou enrolada com as questões de argamassa, de ir de vir, ou de virar borboleta. O sujeito percebe nessa imagem, na configuração serial da receita, na porção torqueada com tecnologia que revela do negativo as cores fruta chuva de verão dessa cena, a repetição de seus dias na passagem lenta, letrada atrasada e camuflada da lagarta até algum fim, até que aparece algum muro mais alto impossível de sucumbir. Quer tanto ir até sei lá que metamorfose análoga aos feitiços e princípios mágicos dos tempos, ou de somente um flash refletindo o oco no último tijolo engrupado no muro do mundo cheio de musgo, nódoas de vento, colocado lá para receber tal verme que vem de tão longe. O sujeito, de corpo cheio de resíduos tóxicos, litros alcoólicos, questões radioativas, angústias e acasos e mágoas mal resolvidas, e-mails não respondidos, saudade, aquela retrospectiva que não quero sentir, um anúncio de cartões postais, buracos sensores pela frente, a ausência de futuridade de uma mão que não queria ler, sozinho, de madrugada, roendo latas de peixe enxovalhadas, queria apenas ser, borboletear. Então ele tenta, abre e fecha a geladeira, vai e vem até a auréola de mofo que coroa a lâmpada no teto, muda de canal, ensaia um beijo no inseto. Ainda tentando ser a recém-revolta, dando voltas e mais voltas, pisando e desvendando as circunferências do parto do sol nascendo da barriga da noite, ensaiando o vômito do caracol da escada, vocifera contra o jornal da manhã, em que o âncora dá gargalhada e lambe com um pente o seu topete de marinheiro, salvador da pátria, homem viral, após anunciar, ao longo de toda semana, sessenta e quatro ou duzentos fuzilamentos, é difícil de contabilizar. O âncora do jornal, pensa o sujeito que tenta ser, quer dizer, ser um ser, que comemora agora o diante depois de amanhã, o júbilo sabático, hoje é borboleta e voa. O âncora é reluzente, resplandescente, relíquia rara de várzea enferrujada na floresta, moderno ao avesso, um olho fechado e outros tantos vesgos, enquanto dorme, evita pensar em golpes violentos ou vísceras estribuchadas, em professores ou em mães trazendo nos braços a lembrança da criança morta, sonha que se vira muito bem no mar, e janta ao som de cítara barroca na companhia de tubarões enperucados.

“Passou um versinho voando, ou foi uma gaivota?”

… cuidado com o vento suli