Aluga-se um romance vencido

Dias depois de te conhecer, corri pra comprar 27 metros de arame galvanizado. A ideia era criar um sistema solar que te fizesse sorrir. No estilo jovens Geração Pós-ditadura, a gente romantizava o magnetismo invisível que uniria mundo e Terra.

Pós-modernos. Pós-irônicos. Pós-cinismo. Pós-históricos. Romantizávamos o próprio desengano. Só que sem os pós. Nada passou. A não ser os cristais que a gente cheirava ingênuo e inseguro pelos canudinhos de 100 cruzeiros.

Nas matinês, — eu pensava — vamos acabar com essa Guerra Fria, broto. Porque aqueles lábios cor carvão nunca se abriram num sorriso. Porque, enquanto não batias a cabeça ao som dos Pistols, entre um a no feelings e outro, a gente se encarava como dois felinos antes do ataque. Mal sabia eu, era Guerra Fria porra nenhuma. Isso aqui é rock pesado, minha filha. Aquele era só o semblante desconfiado de 17 anos baqueado de pó. Baqueados de tantos pós -.

Vi você sorrir pela primeira vez enquanto a gente assistia Cosmos na TV da sala de seus pais. Daí veio a ideia do sistema solar. Um móbile, um chaveiro, sei lá. Você parece feliz, eu disse sem deixar de mirar o Carl Sagan, não estou feliz, é só distração, você respondeu. Um sistema solar que te distraísse então.

Os planetas seriam esferas de isopor pintadas com guache. Órbitas e estrelas seriam toda sorte de lixo que a gente encontraria pelo caminho. Lacres metalizados de latinhas. Molas malucas de glitter. Sem o menor constrangimento, cortaria os pulsos e englobaria Marte com rendas rubras de sangue.

No meio do processo criativo, ao compartilhar meu projeto contigo, digo que posso ser um objeto de plástico, do âmbar do petróleo vou ao transparente do silêncio expandido. Ao ampliar a obscenidade nas dobras no campo de um cometa, ouvi que eu deveria agir de um modo mais natural, que combinaria mais com esse meu lado fêmea.

Eu, com cabelos crepitantes após inúmeras sessões de permanente, com a naturalidade de cobras embebidas no formol em potes de conserva.

De um modo mais natural, você dizia à vietnamita nua que saiu mole feito línguas de magma da rua bombardeada para andar de mãos dadas com Mickey e Ronald McDonald numa camiseta estampada.

Mais natural do que as biografias de Gautama, Dandara e Marx, lado a lado, na prateleira de esoterismo/ciência. Você queria alguém que te perguntasse coisas que ninguém sabe responder. Ativista. Revolucionária feminista. Monge que divide as parcelas do workshop em 12 vezes na maquininha. Arquiteto de prédios que nunca cairão. Merendeiras que alimentam o futuro. Monstros blasé do Jaspion. Babás brasileiras que vão para Alemanha fazer um pezin de meia. Tias, avós, mães, filhas que fumam escondidas no banheiro.

Aqui, poderíamos ser qualquer coisa. E quando vem o redemoinho em labirintos somos esses bichos esquisitos. Mas ainda seríamos somente atos que falam e falham desesperadamente por essa ideia de ser e significar neo-qualquer personalidade, neo-qualquer estética que sublime esse rombo em teu peito, qualquer coisa que não seja o interdito. Qualquer coisa que a gente podia ter dito.

Espiritualidade sem o divino. A naturalidade do arame que só serviu pra apertar a rosca de um torneira vazando, anos depois, em meu apartamento solitário.

O que fazer agora com todas essas voltas e linhas? O que era só meu ou só teu nessas experiências? Alô, Sartre, atualiza aí teu bloco de notas, queridão: o inferno são os meus eu-mesmos. A torneira ainda pingando. Pinga. Pinga. Pinga. Esferas de isopor levadas pelo esquecimento até outro cômodo. Todo dia um nunca mais aqueles granulados brancos sobrevoando nossas vias aéreas. Nunca mais o passado no presente vive.

Todo dia um nunca mais encontrei tua namoradinha com-ple-ta-mente drogada cantando Gal Costa na praia. Todo dia parece que algo muito grandioso está prestes a acontecer. Mas a gente não quer dizer mais nada. Balbucio, rascunho, esboço, bilhete, bobajada. Nada. Mais nada. Ficou só aquele gosto amargo de morango mofado na boca. Diria que morreria contigo entre meus lábios, Caio, mas te ouço contar sobre as influências de teu mapa natal em tua escrita e re-penso, que nasceria contigo entre meus lábios.

Suco verde detox. Terapia. Plantas que esquecemos de aguar. Coleta seletiva de lixo. Mãos higienizadas. Gratiluz. Evite o contágio. Após o sinal, finge costume e que não tá olhando. Turuuuru, mete print porque aqui está quente, quente, está muito quente. Fomos chamados por uma ONG para revolucionar o mundo com nossos posts antes que acabem os livros. Há aldeias onde nunca chegou sequer uma vírgula das coisas que tu diz amar. Amar, esse ato tão viciante.

Escolha o adesivo de nicotina e a máscara que mais combinam com seu look. Esfriando.

Em décadas atrás eu me abandonei para performar a neo-falta daquilo que desde sempre me escapa, mas restava algo de meu aqui. Restava guardada uma falta na farda, mãe tire o distintivo de mim, que eu não posso mais usá-lo. A gente estava mesmo preparado para o fim do mundo? Não vá sem mim. Queimando.