Acordar na Rua do Mundo

Luiza Neto Jorge, in 'A Lume'

madrugada, passos soltos de gente que saiu

com destino certo e sem destino aos tombos

no meu quarto cai o som depois

a luz. ninguém sabe o que vai

por esse mundo. que dia é hoje?

soa o sino sólido as horas. os pombos

alisam as penas, no meu quarto cai o pó.

um cano rebentou junto ao passeio.

um pombo morto foi na enxurrada

junto com as folhas dum jornal já lido.

impera o declive

um carro foi-se abaixo

portas duplas fecham

no ovo do sono a nossa gema.

sirenes e buzinas, ainda ninguém via satélite

sabe ao certo o que aconteceu, estragou-se o alarme

da joalharia, os lençóis na corda

abanam os prédios, pombos debicam

o azul dos azulejos, assoma à janela

quem acordou. o alarme não pára o sangue

desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo

não gravou

e duma varanda um pingo cai

de um vaso salpicando o fato do bancário