Todo quinto dia útil do mês subo e desço as voltas das contas de subtração que abocanham meu salário. Quasi um ano essa alavanca eu aciono pra subir na casa do Ademir, dono das kitnets em que moro. Nesse meio tempo de subida nada muda, senão os nomes que ele me dá "Neno", "Nando", "Nelson", tudo, menos meu nome que às vezes nem eu quero lembrar. No meio tempo da descida nada muda, nem a sensação de que deixei quase um terço dos meus dias nas mãos de limpar calçada daquele velho.

A cada novo nome penso "Êh, velho, se eu pudesse mesmo ser esse tanto de gente que tu arranja pra ser, criava um novo CPF pra cada eu, botava todos eles pra trabalhar e pagar conta comigo, mesmo se fossem espírito, uh encosto, deixa de moleza e lava uma louça, me leva pra passear em outros corpos também". Tem uma música que diz "Eu levei minha alma pra passear".

Sempre ouvi Nação Zumbi e só entendi essa parte quando fui num show dos caras e a roda punk comeu solta. Na roda punk, todo mundo se parece com anjos em forma de peças de quebra-cabeça sem pares, que tu tenta encaixar de qualquer jeito, e não fecha.

É um suvaco na boca, cabelo no olho, ah, libertador pra cacete. Por um momento, dá pra entender o porquê os espíritos se apossam de outros fulanos, o gosto que dá levar tua alma pra passear em outros corpos, mesmo que seja pra se surrar num solo de guitarra ou num refrão.

Hoje, só tenho tempo e grana pra me enfiar é numa tela, num status, pegar todo esse meu 1000d e me fazer uma superfície, um stories, um status, um post, que uns fulanos bem instrospectivos, na surdina, usam pra entrar em mim quando cansam de si. Oh, ranço fudido tá ligado? Fazer o que? Daqui é ruim de entrar e ruim de sair.