A caixa do Padrinho era mágica e nela uivavam baleias notívagas. Aguardava o fim de semana pra ver ele, mais a madrinha, e a caixa dele. Semana sim, semana não. A gente subia aquela morreba enquanto a mãe falava, menino, não vai incomodar a cumadre, pode deixar mãe, o negócio é abrir a caixa do Padrinho.

Cada um de nós tem uma caixa, pode ser pequena, interna, pouco importa o tamanho, sua dimensão não limita a sorte e os destinos (aqueles já acontecidos ou não) que nela se guardam.

O Padrinho morava num pico tão alto que o carro nem chegava. Ao longo do dia, o sol se espreguiçava pela casa com a demora de véus multicolores caindo leves, e mudava de tom ao tocar nas paredes, nos pelinhos dos braços da gente, na caixinha do Padrinho… E aí o feitiço se lançava.

A caixa era revestida de pequenos espelhos fragmentados. Ali, o mundo se dividia em mil paraísos do como se. Lembro do Padrinho contando o dia que quebrei o espelho foi um dia decisivo, deixei de estar liso num retângulo para refletir nas mãos de quem ousa arrancar um cílio e fazer um pedido. Aconchegava o banquinho pr’eu sentar junto dele, na varanda, e observar o rio refletindo cristais invadidos pelo sol, o pó dos espelhos, véus lilases e pedidos aos pés das montanhas.

Quando abria a caixa, saiam dali o esqueleto de uma caravela, ainda com panos imensos bailando nos lábios do vento, e os gritos de baleias. Tudo do tempo em que o rio era um mar que tomava as montanhas, e aqui, na casa do Padrinho, nem morro era, era uma ilha, ao sair da porta a gente molhava os pés e de noitinha ouvia o uivar melódico das baleias em meio às criaturas marinhas estranhas.

As baleias são bichos criados pela imensidão dos mares. E assusta tanto esse mundo em que há mamíferos desse tamanho. Mamíferos monstros. Que só podem mamar no seio de um tempo infinito. E a baleia franca? Não me deixa mentir que o mundo seja algo do absurdo. Faz pensar que numa caixinha de histórias e num espelho, se cabe o canto de uma baleia, cabe o universo inteiro.

De presente, no natal, já sabia o que ia pedir pro Padrinho, não foi a caixa, e nem me atrevi a pedir um barco. Magina. Gostaria, escrevi na cartinha, gostaria de ganhar um piano, um saxofone, um berimbau ou o livro de ciências em que fosse possível encontrar algo como o uivo louco notívago calmo assustado gigantesco do animal que nada na caixinha aqui de dentro.